26th Oct 2008

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    1. Só neste momento é que tive a destreza de ir ao nosso baú que se encontra junto à porta de casa, onde está contido um terço do nosso passado ; desde cartas, a fotografias, a banais papeis soltos, até ao meu diário - cheio de pó - que escrevi até ao meu décimo primeiro ano de escolaridade.
      Ainda andavas tu a cirigaitar, sempre de olho bem aberto, para as moças esbeltas que sempre seguiram o rasto que o teu perfume fazia questão de alastrar.
      Por onde passavas, as tuas safiras, o reflexo doirado dos teus caracóis, o rosado estampado nas maçãs de rosto, o caminhar confiante e o ar de menino inocente, nunca te largaram.
      Depois, fazias o maior sorriso do mundo - o maior e o mais bonito que alguma vez presenciei, confesso - e tinhas a rua a teus pés.
      Avenida da Liberdade. Todos os dias, por volta das dez para as seis da tarde - já os raios solares rastejavam pelo alcatrão - trocávamos o caminho e encontrávamos o olhar vazio, que nos era recíproco.
      Revelo que nunca fui nas tuas cantigas; cabisbaixa, óculos sobre a ponta do nariz, cabelo apanhado e caiada de padrões de todos os feitios e tamanhos, lá te ia fazendo frente, sem sequer nunca te enfrentar.
      Com o passo apressado, dirigia-me ao café do "Senhor Guimarães" para tomar a minha bica, onde me debatia sempre com quatro sábios de bigode e cabelo grisalho que dispotavam entre si, sempre o mesmo jogo de cartas e consequente diálogo.
      Sentava-me na esplanada - na mesa do canto, que só tinha uma cadeira - e ao sabor do maravilhoso café, riscava a toalha de papel e, mais tarde, arrancava os pedaços que tinham sido mencionados pela consciência e levava-os comigo para casa.

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